Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

OS AVIÕES DA PAZ.

1. No primeiro fim-de-semana de Setembro, nas cidades de Porto e Gaia, por sobre o rio Douro, decorreu mais uma edição do festival aéreo Red Bull Air Race. Se até aqui esta informação aparentemente nada tem de anormal, já para quem vive na área destas duas cidades este facto é tudo menos uma rotina. Como se sabe a cidade do Porto tem à frente da sua Câmara Municipal uma pessoa que puxa da máquina de calcular sempre que ouve falar de cultura. Não sei se para saber o quanto esta pode ser benéfica, também em numerário, a qualquer sociedade civilizada, ou porque simplesmente não sabe contar. Um facto é certo: não sendo um evento exclusivamente cultural, o Red Bull Air Race é um exemplo de como um tecido urbano pode, em múltiplas frentes, ser articulado por uma agitação que traz para a rua milhares de cidadãos, cumprindo um papel dinamizador de vontades e anseios que também compete à esfera pública desenvolver. O Red Bull Air Race, quer por mérito próprio, quer por ausência de outras grandes iniciativas lúdicas e culturais na cidade do Porto, tornou-se num momento único que marca a rentrée política, social e cultural desta urbe moribunda. Tanta gente na rua, (a organização avançou com um milhão de espectadores), indicaria aos visitantes que a cidade vive uma dinâmica eufórica que palpita a olhos vistos. Mas não. É apenas sede de eventos, de algo que faça o portuense abandonar o sofá e a novela, a praia e o chinelo, o cimbalino e a Bola, o fandango e a parolice decadente do bailarico apimbalhado. Apostas, de resto, da ‘política cultural’ da presente vereação. Por isso não admira que puxe a si méritos alheios nesta e noutras iniciativas, e a elas se cole com o sorriso dos emplastros que dão tudo para ficar no retrato. Assim, terminado o Red Bull Air Race, o portuense, triste e desamparado, lá regressa às actividades culturais que tanto o enobrecem: um passeio na Ikea, um folhado na barraca de plástico em plena Praça da Liberdade, e upa depressinha para casa que esta cidade depois das sete é de meter medo. Com as fachadas a cair, os arrumadores a ciceronar, as montras grafitadas e pobres, sem uma única sala de cinema aberta, este é o Porto que deixámos acontecer. Venham de lá os aviões em 2009 que a gente agradece. Até lá, hiberna-se.

2. Outro fenómeno curioso que este país ainda produz, é o atávico paternalismo provinciano com que uma certa Lisboa vê e comenta tudo isto. Para ser sincero, nunca encontrei, nem em Portugal, ninguém tão pouco viajado como o lisboeta. É claro que conhece Varadero e a Ilha do Sal, já foi a Goa e provavelmente a todos os destinos exóticos da moda, não esquecendo umas ilhas de nomes esdrúxulos, que reclamam terem sido os primeiros a visitar, enquanto bebericam cosmopolitans e mojitos no Lux ou afins. O lisboeta não sai é de dentro de si. Tem um “primo no norte”, esse conceito extraordinário que gosta de enfatuar, conhece a “noite do Porto”, outra inefável invenção que me ultrapassa, (como se as noites não fossem iguais em todo o mundo, à excepção do Iraque onde também há bombas e mortos, mas sem ser em discotecas). Por isso para o comum dos lisboetas, que possui Gulbenkian, CCB, Cinemateca, Parque das Nações, Casinos, Palácios, e, sobretudo, o governo, não faz sentido nenhum ter que ir ao Porto para ver o Red Bull Air Race. Pois se o pode fazer em Sidney, na Austrália, ou no delta do Mekong, para quê a maçada de ter que ir lá ao “norte”, onde não há rigorosamente nada para ver, para além do Pinto da Costa a espumar ocasionalmente? Ainda por cima corre o risco de constatar que o “primo” morreu há dez anos e que a noite é afinal tão idiótica como aquela donde vem. No fundo, no fundo, este lisboeta não existe. Ou se existe, está dentro de todos nós. Mesmo no tripeiro mais acérrimo. Ele é uma mera metáfora do português: ignorante e comodista, quer que tudo lhe bata à porta sem ter que se esforçar grande coisa. Assim uma espécie de Marco Fortes, esse grande luso que queria atirar o peso em Pequim, mas da caminha. O que eu quero dizer com isto é que não falta gente por aí a advogar o Red Bull Air Race no Montijo ou na Trafaria, desde que, obviamente, longe da Quinta da Marinha, porque a gente quer é sossego e para barulho já chega termos que ir ver a Madonna lá para aqueles lados de Chelas. Que maçada. Mas, Noblesse Oblige, os tios contrafeitos, lá marcarão presença para tonto ver na revista cor-de-rosa.

3. O Sr. Saakachvili é um aventureiro perigoso. Para quem não sabe, este senhor é o Presidente da Geórgia, aquele pequeno país do Cáucaso que, atravessado por um pipe-line, resolveu unilateralmente provocar militarmente a gigante Rússia, contando com o ovo no esfíncter da galinha. Que é como quem diz, ‘agora que a crise petrolífera se agudiza, invado a Ossétia do Sul e a Abcásia e sendo eventualmente retaliado, terei sempre os meus amigos do Ocidente a cobrir estes devaneios, porque por aqui reina o petróleo’. Errado. Num momento em que a Rússia se reafirma como uma potência mundial, reequilibrando no terreno geo-político a força que, desde o colapso da União Soviética, os Estados Unidos açambarcaram para si, não poderia haver pior altura para passeios militares por territórios alheios. Não só o Sr. Saakachvili não pôde contar com o aguardado apoio militar dos EUA, não obstante frases esfíngicas de Condoleeza Rice que o terão incentivado a avançar, como, muito menos ainda, com o apoio da Nato, organização à qual, graças à velha sagesse europeia, a Geórgia, felizmente, não pertence. É que caso pertencesse, hoje, ao abrigo do artigo 5º da mesma, a retaliação russa teria sido encarada como uma agressão a todos os membros da Nato. Daí a uma violenta e não desejada guerra na Europa, está bom de ver, teria sido um passo muito curto. Relembre-se que o Sr. Saakachvili, substituiu, na chamada revolução rosa, o moderado Eduard Shevardnaze, e é mesmo considerado pela sua mais directa ex-colaboradora, presidente do Parlamento e, agora, opositora, Nino Burjanadze, como alguém que colocou em risco a soberania e integridade da Geórgia. Ainda que a crise não tenha passado, e que muitos civis tenham perecido graças à boçalidade de qualquer guerra, passar do desequilíbrio do terror para o terror do equilíbrio, vulgo guerra-fria, era uma troca inevitável e, a meu ver, positiva. Poderá esta nova atitude russa prevenir uma agressão nuclear americana e/ou israelita ao Irão? Provavelmente sim. Porque há aviões que trazem Paz e outros nem por isso.

 

Porto, 1 de Outubro de 2008

 

Pedro Abrunhosa

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 12:46
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